10 de junho de 2026

Terrorismo, minerais críticos e soberania: o teste estratégico entre Brasil e EUA, por Gisele Agnelli

A relação entre Brasil e EUA ingressa em uma zona de atrito mais densa, mais complexa e mais reveladora da nova geopolítica hemisférica.
Reprodução

EUA podem classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, ampliando o combate ao crime transnacional.
Projeto Vault dos EUA busca minerais críticos no Brasil, pressionando o país a definir alinhamento estratégico.
Visita de Lula a Washington será crucial para negociar cooperação e autonomia diante da pressão americana.

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Terrorismo, minerais críticos e soberania: o teste estratégico entre Brasil e Estados Unidos

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A possível classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras não é apenas uma medida de segurança. É um instrumento de poder. Entre a doutrina antiterror, a disputa por terras raras e o calendário eleitoral brasileiro, Washington parece elevar o custo da ambiguidade estratégica de Brasília.

por Gisele Agnelli

              A relação entre Brasil e Estados Unidos ingressa, em 2026, em uma zona de atrito mais densa, mais complexa e mais reveladora da nova geopolítica hemisférica. No centro da tensão está a possibilidade de Washington classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como Foreign Terrorist Organizations (FTOs), isto é, organizações terroristas estrangeiras. À primeira vista, trata-se de uma discussão ligada ao combate ao crime organizado transnacional. Na prática, porém, o debate é muito maior: envolve soberania, extraterritorialidade, assimetria de poder, reorganização de cadeias estratégicas e o reposicionamento do Brasil diante de uma nova doutrina de segurança dos Estados Unidos. 

              Segundo informações reunidas por jornalistas e fontes diplomáticas, as equipes técnicas do governo americano já teriam concluído os trabalhos para a designação das facções brasileiras, restando etapas políticas para sua formalização. Se consumada, a medida colocaria PCC e CV em uma categoria jurídica reservada, historicamente, a organizações como Al-Qaeda, Hezbollah e Estado Islâmico. Não se trata, portanto, de mera atualização terminológica. Trata-se da transposição de um fenômeno tradicionalmente tratado no Brasil como problema de segurança pública e crime organizado para o léxico do antiterrorismo internacional.

              Essa mudança semântica importa porque, em política internacional, ela redefine competências, altera legitimidades e expande repertórios de ação. Nos Estados Unidos, a designação FTO encontra base na Seção 219 do Immigration and Nationality Act, que permite ao Departamento de Estado classificar como terrorista uma organização estrangeira que pratique ou tenha capacidade e intenção de praticar atividade terrorista e que represente ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos. Nos últimos anos, porém, Washington passou a ampliar de forma significativa a interpretação dessa ameaça, incorporando a ela redes de narcotráfico, cartéis e organizações criminosas violentas com atuação transnacional. Esse alargamento conceitual é um dado central da conjuntura: ele revela que os Estados Unidos passaram a tratar o crime organizado não apenas como questão criminal, mas como vetor de instabilidade estratégica.

              É por isso que a eventual classificação do PCC e do Comando Vermelho deve ser lida menos como um episódio isolado e mais como parte de uma inflexão doutrinária. O crime organizado transnacional passa a ser enquadrado, em certos contextos, como equivalente funcional do terrorismo.

              As consequências práticas da designação são amplas. O apoio material à organização passa a ser crime nos Estados Unidos; ativos podem ser congelados; transações internacionais, bloqueadas; indivíduos associados, sancionados ou deportados; e a cooperação entre agências de inteligência, segurança e defesa se intensifica. O primeiro efeito é financeiro: o sistema bancário global, profundamente atravessado pela centralidade do dólar e pela jurisdição regulatória americana, tende a fechar espaços de circulação para qualquer operação suspeita de conexão com o grupo designado. O segundo é político: a designação internacionaliza o problema e desloca o eixo da resposta, do campo policial-judicial para um terreno onde segurança nacional e política externa se confundem.

              A designação de um grupo como terrorista por um Estado, por si só, não autoriza automaticamente ação militar em território estrangeiro. Mas ela pode reforçar a arquitetura argumentativa da chamada doutrina do “unwilling or unable” , “incapaz ou não disposto”. Segundo essa formulação, se o Estado em cujo território atua determinado grupo reconhece a periculosidade da organização, mas não demonstra capacidade ou disposição para neutralizá-la, outro Estado poderia alegar autodefesa e agir unilateralmente com base no Artigo 51 da Carta da ONU (AUMF ou artigo II). O argumento foi mobilizado, em graus variados, em contextos como Paquistão, Iêmen e Somália.

              A controvérsia é evidente. A doutrina não é consenso no direito internacional. Ainda assim, ela se consolidou como instrumento político-jurídico da prática estratégica americana no pós-11 de Setembro. O ponto decisivo, aqui, não é saber se Washington poderia aplicar essa lógica ao Brasil de forma simples ou linear. Não poderia. O Brasil não é Somália, nem Iêmen, nem Paquistão tribal. O Brasil é uma democracia de escala continental, com capacidade estatal, peso econômico, densidade diplomática e custo geopolítico elevado para qualquer aventura de violação aberta de soberania. O ponto decisivo é outro: a designação FTO amplia o poder de coerção narrativa de Washington e eleva a pressão sobre Brasília, mesmo que a hipótese de uso direto da força militar permaneça remota.

              Em termos estratégicos, esse é o coração do problema. A classificação do PCC e do CV como organizações terroristas estrangeiras não deve ser lida prioritariamente como antesala de bombardeios em território brasileiro. Esse cenário é altamente improvável e, nas condições atuais, irracional para os próprios Estados Unidos. O verdadeiro efeito da medida estaria em outro plano: o de expandir a capacidade americana de impor custos, enquadrar prioridades, condicionar cooperações e testar a margem de autonomia do governo brasileiro.

              É exatamente nesse contexto que ganha especial relevância a visita de Luiz Inácio Lula da Silva a Washington, prevista para março ou abril. O chanceler Mauro Vieira já levou o tema ao secretário de Estado Marco Rubio, em tentativa de barrar a classificação das facções brasileiras como organizações terroristas. Isso demonstra que o governo brasileiro compreende a gravidade da questão.

              Mas há um segundo tabuleiro em movimento, igualmente importante, e que ajuda a explicar a sincronia do momento: a disputa global por minerais críticos.

              Em fevereiro de 2026, o governo Trump lançou o Project Vault, programa de cerca de US$ 12 bilhões destinado à constituição de uma reserva estratégica de minerais essenciais para a indústria tecnológica, energética e militar dos Estados Unidos. Entre os insumos prioritários estão terras raras, lítio, cobalto, níquel, gálio e cobre, elementos indispensáveis para semicondutores, radares, sistemas guiados, satélites, carros elétricos, turbinas e infraestrutura de inteligência artificial. O programa responde a um diagnóstico central de Washington: a vulnerabilidade estrutural dos Estados Unidos diante da predominância chinesa na cadeia de processamento de minerais críticos.

              Nesse ponto, o Brasil deixa de ser apenas um parceiro diplomático relevante e passa a ser um território de interesse geoeconômico de primeira ordem. O país possui algumas das maiores reservas potenciais de terras raras do planeta, com destaque para áreas em Minas Gerais e Goiás. No entanto, o governo brasileiro ainda não aderiu formalmente ao Project Vault, preferindo uma estratégia multivetorial, baseada em negociação simultânea com Estados Unidos, União Europeia, China e Índia, de modo a preservar autonomia decisória e capturar maior valor agregado industrial.

              Essa cautela brasileira é racional. O que está em disputa não é apenas exportação mineral, mas posicionamento estrutural na nova economia política global. A batalha do século XXI não gira mais apenas em torno do petróleo. Ela passa cada vez mais por três eixos decisivos: dados, semicondutores e minerais críticos. Nesse sistema, países com capacidade mineral relevante deixam de ser apenas fornecedores de commodities e passam a ser peças centrais na engenharia da segurança econômica das grandes potências.

              É por isso que a coincidência temporal entre o lançamento do Project Vault, a retomada da pressão americana sobre PCC e CV e a viagem de Lula aos Estados Unidos não pode ser tratada como mera casualidade diplomática. O calendário importa. Em política internacional, o timing é frequentemente tão eloquente quanto a substância.

              Minha percepção é que o governo Lula vem tentando administrar essa assimetria por meio de uma estratégia de adiamento calculado…. uma espécie de ambiguidade operacional controlada. A lógica parece ser manter o canal diplomático aberto, oferecer sinais seletivos de cooperação e evitar rupturas públicas, enquanto decisões mais estruturais são progressivamente postergadas, especialmente na área de segurança. Em alguns momentos, Brasília tem buscado demonstrar disposição para colaborar com investigações internacionais relacionadas ao narcotráfico e ao crime organizado transnacional, gesto que funciona como sinal diplomático de boa-fé perante Washington. Ao mesmo tempo, esses movimentos não alteram o elemento central da estratégia brasileira: o país continua resistindo a uma reconfiguração mais profunda da parceria em segurança que possa ampliar a presença, a influência ou a discricionariedade operacional dos Estados Unidos em temas sensíveis de soberania.

              O problema é que esse tipo de estratégia tende a funcionar enquanto a potência hegemônica aceita conviver com a ambiguidade. O que parece ocorrer agora é justamente o oposto: Washington estaria elevando o custo do adiamento brasileiro. A volta do tema PCC-CV à mesa, após já ter sido ensaiado em 2025, ocorre agora em um momento especialmente difícil para Brasília: às vésperas das eleições presidenciais brasileiras e logo após o lançamento de um projeto geoeconômico (Vault) ao qual o Brasil ainda não aderiu. Isso sugere que a viagem de Lula a Washington pode ser menos uma visita protocolar e mais um momento de cobrança estratégica concentrada. Em outras palavras: os Estados Unidos parecem querer verificar se o governo brasileiro continuará apostando em cooperação seletiva e autonomia negociada ou se, diante da elevação da pressão, fará concessões mais nítidas. É aqui que o tema deixa de ser apenas jurídico e passa a ser decididamente político.

              A questão central talvez não seja se Trump “gosta” de Lula ou se há boa química pessoal entre ambos. Relações pessoais podem reduzir ruídos, mas não substituem interesses estruturais. A questão é saber se, para Washington, o atual governo brasileiro ainda pode ser percebido como parceiro funcional em temas prioritários: minerais críticos, contenção indireta da influência chinesa, ou se passará a ser visto como ator resistente demais, autônomo demais, hesitante demais.

              Daí decorrem dois cenários. No cenário mais estável, os Estados Unidos aceitam a lógica do pragmatismo bilateral: pressionam, mas não rompem; cobram cooperação, mas preservam neutralidade relativa diante da disputa eleitoral brasileira; trabalham com Lula enquanto interlocutor imperfeito, porém institucionalmente confiável. Esse seria o cenário mais racional (e otimista) para o Brasil.

              No cenário mais complexo, porém, Washington conclui que Lula não entregará o nível de alinhamento desejado e passa a reavaliar seus incentivos políticos no Brasil. Nessa hipótese, a direita brasileira poderia voltar a ser percebida por setores do establishment americano como opção mais convergente com os interesses de Trump 2.

              Essa é a dimensão mais delicada do problema para o Itamaraty. O temor de interferência americana no processo político brasileiro não precisa se materializar na forma clássica da intervenção aberta para produzir efeitos.  No século XXI, porém, esse repertório de poder foi significativamente ampliado pelo que alguns analistas descrevem como a infraestrutura privada da esfera pública digital. Grandes plataformas tecnológicas passaram a operar como intermediárias centrais da circulação global de informação, estruturando os fluxos de debate político por meio de sistemas algorítmicos opacos, mecanismos de amplificação e regras de moderação que, na prática, influenciam a visibilidade e o alcance de determinadas narrativas. Nesse ambiente, a disputa política passa a ocorrer também no terreno da geopolítica dos algoritmos

              Não se trata necessariamente de uma intervenção estatal tradicional, mas de um fenômeno mais difuso: uma espécie de privatização parcial da capacidade de influência internacional, na qual infraestrutura digital, redes sociais e fluxos algorítmicos de informação se convertem em vetores de poder político. A integridade de processos eleitorais e a proteção da soberania informacional passam a depender não apenas de relações entre governos, mas também de decisões tomadas dentro de empresas tecnológicas que operam em escala global e cujas plataformas moldam, em grande medida, o ambiente contemporâneo de formação da opinião pública.            

              Por isso, a eventual classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras deve ser interpretada em sua totalidade. É, principalmente, uma peça de negociação geopolítica. Uma ferramenta de pressão sobre o Brasil em um momento em que Washington quer respostas mais claras sobre o “pretenso” interesse em segurança, e o real interesse em cadeias estratégicas e posicionamento internacional.

              Ao governo brasileiro caberá decidir se continuará tentando ganhar tempo por meio da ambiguidade, se converterá gestos pontuais em cooperação mais robusta ou se assumirá, de forma mais explícita, uma linha de autonomia estratégica mesmo sob maior pressão. Ao governo americano caberá decidir se tratará o Brasil como parceiro complexo a ser administrado ou como potência regional relutante a ser disciplinada.

              No fundo, é esse o teste real em curso. Mais do que uma controvérsia sobre PCC, Comando Vermelho ou tipificações jurídicas, o que se desenha é uma disputa sobre o lugar do Brasil no novo tabuleiro do poder hemisférico. Um tabuleiro em que segurança, tecnologia, soberania e recursos minerais passaram a fazer parte da mesma equação. E em que a capacidade de resistir à coerção sem romper a interlocução talvez seja a habilidade diplomática mais valiosa de todas.

Gisele Agnelli – Socióloga com especialização em ciências políticas, graduada pela PUC-SP, pós-graduada em Marketing e em Gestão da Informação, ambos pela ESPM. Fundadora do #VoteNelas. Atualmente reside nos EUA e faz parte do Movimento de Lideranças Femininas do Partido Democrata, Hoosier Women Forward.

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